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terça-feira, 7 de junho de 2016

Poluição Luminosa

Todos os astrônomos amadores (e também profissionais), mais cedo ou mais tarde, enfrentam este pesadelo chamado poluição luminosa, com foco particular nos grandes centros urbanos, onde a visibilidade do céu, devido à estrutura deficiente da iluminação pública, se torna bastante reduzida. Aqueles que, como eu, vivem perto do centro de uma grande cidade, não conseguem tirar o máximo partido do telescópio e são obrigados a, quando possível, “fugir” para zonas mais rurais e assim conseguir uma boa noite de observações.Quantos de vocês, habitantes das cidades, alguma vez conseguiram olhar para o céu e ver algo semelhante à fotografia em baixo ?

O que é a Poluição Luminosa?

De um modo geral, a poluição luminosa é o excesso de luz artificial emitido pelos centros urbanos, com destaque para as grandes cidades. Pode ser emitida de diversas formas, como através de grandes anúncios publicitários, luzes externas nos edifícios, entre outros, mas a principal fonte desta poluição reside na iluminação pública.

Causas da Poluição Luminosa

A iluminação pública é absolutamente essencial. Nenhum astrônomo amador ou mero curioso das estrelas sugere desligar as luzes das cidades e causar danos na segurança das pessoas, provocando acidentes de trânsito e contribuindo para o aumento da criminalidade. Todas as cidades devem ter um sistema de iluminação noturna e os candeeiros estão muito bem onde estão. Então, qual é o problema?


São as próprias luminárias !!!
Para que a iluminação seja suficiente, a luz deve vir do topo e dirigir-se única e exclusivamente para baixo, ou seja, para as ruas, onde as pessoas e o trânsito circulam. No entanto, boa parte das luminárias não foram desenhadas nesse sentido. Algumas, distribuem também a luz no sentido horizontal ás lâmpadas e outros, que são os piores em termos de eficiência e poluição, projetam a luz para cima, ou seja para as nuvens. Meus caros! Os aviões não precisam disso! Muito menos as nuvens.
O alvoroço em torno da poluição luminosa começou a instalar-se nos grupos de astrônomos amadores dos EUA, na década de 80, onde com alguma pressão junto dos poderes locais, conseguiram que a iluminação pública fosse corrigida em vários sítios. Ainda assim, a verdade é que cerca de 2/3 da população dos EUA e cerca de metade da população da União Europeia, perdeu a visibilidade da Via Láctea a olho nu.
                        Em zonas com pouca ou nenhuma poluição luminosa, a Via Láctea é observável à vista desarmada
 Por sua vez, numa zona urbana com poluição luminosa, o céu é bastante mais pobre e só as estrelas mais brilhantes se                       conseguem destacar

Para se ter uma real noção deste problema, um relato verídico: em 1994, um terramoto em Northridge deitou abaixo a energia eléctrica da cidade de Los Angeles, quebrando portanto a iluminação pública. Pouco depois de isso acontecer, tanto a polícia como os centros de emergência, receberam chamadas telefônicas de pessoas inquietas, devido à presença de uma grande mancha nebulosa a atravessar o céu. Estas pessoas estavam, pela primeira vez, a observar a Via Láctea. A poluição luminosa fez com que a visão da Via Láctea, fosse mais uma lenda do que uma realidade.

Consequências da Poluição Luminosa

A quantidade de estrelas que se conseguem observar nas cidades, devido à poluição luminosa, é assustadoramente pequena quando comparado com o céu das zonas mais rurais, ficando assim as pessoas quase totalmente privadas de apreciar a beleza do céu noturno, uma visão que as nossas gerações passadas contemplaram sem dificuldade mas que se vê a cada ano mais ameaçada – aliás toda a proteção da paisagem noturna é largamente desvalorizada, por questões que me ultrapassam.

Uma iluminação pública mal concebida:
É um desperdício de energia, pois é necessária uma maior quantidade de luz para que ilumine suficientemente as ruas, já que a maioria é dispersa para a atmosfera;

Sendo um gasto energético desnecessário, isso significam custos que se podem considerar elevados, e que saem integralmente das carteiras dos contribuintes;

A projecção horizontal e para as nuvens, bloqueia a luz dos astros, reduzindo em larga percentagem os objectos observáveis no céu.

A poeira atmosférica difunde a luz que lhe é projectada e forma o conhecido halo noturno em torno das grandes cidades;

Este tipo de projeção da iluminação não trás qualquer vantagem ou benefício aos cidadãos, que só usufruem da porção de luz que é direcionada para o chão.



Além do aspecto econômico e científico, a poluição luminosa afeta o sistema biológico humano (que necessita de períodos de escuridão para efeitos reparadores e equilíbrio emocional), as aves (fortemente desorientadas pela luz projetada para a atmosfera), os peixes (causando danos nos olhos destes) e as plantas (desequilibra a fotossíntese e altera a polinização). A diminuição de insectos e consequente aumento de pragas, bem como alterações nas posturas das tartarugas e outros desequilíbrios no ecossistema já foram também relatados e estudados.

Soluções contra a Poluição Luminosa

A melhor forma de evitar o problema, é resolvê-lo de raiz. Basta que as autarquias substituam as luminárias poucas eficientes por outras mais eficientes. Não é necessário que o poder local tenha alguma simpatia pelos astrônomos amadores, até porque as luminárias pouco eficientes aumentam em cerca de 40% o consumo de energia das cidades, fato mais do que suficiente para começar a corrigir essa situação tão breve quanto possível. A seguir podemos ver um exemplo da diferença na visibilidade consoante a projeção das luminárias:

Nesta imagem temos os luminárias que projetam a luz em todas as direções, que são os que piores efeitos produzem e mais energia desperdiçam


    


Estas luminárias são um pouco melhores, embora continuem a projetar luz desnecessariamente, como no sentido horizontal, onde não é aproveitada





Por sua vez, aqui estão exemplificados as luminárias com melhor eficácia energética. Repare que ao projetar a luz apenas para a estrada, esta fica tão ou mais iluminada do que nos 2 exemplos anteriores, com a diferença de que o céu está muito menos poluído.

Por parte dos astrônomos amadores, existem algumas medidas que se podem adaptar para tentar contornar este problema, na certeza porém, que a observação numa grande cidade nunca será de grande qualidade. Por esse motivo, a maioria das observações que se fazem em centros urbanos, limitam-se aos objetos mais brilhantes, como a Lua ou os planetas mais próximos da Terra e etc.

Dicas para tentar evitar a poluição luminosa

  • Adquirir equipamento a pensar na portabilidade, ou seja, que se possam transportar com facilidade para zonas mais escuras;
  • Utilizar filtros especiais de redução da poluição luminosa (na foto acima);
  • Não iniciar a observação antes de uma adaptação dos olhos à escuridão (cerca de 30 minutos);
  • Fazer as observações a partir das 2h, hora em que a agitação atmosférica é menor, assim como o trânsito nas ruas.
A não resolução deste problema, além de tudo o que já foi mencionado como o gasto energético e financeiro injustificado, o impacto ambiental, nas plantas, nos animais e no próprio sistema biológico humano, é também uma ameaça à astronomia feita a partir da Terra. Mesmo os maiores telescópios do mundo, construídos em locais afastados para evitar a poluição luminosa, estão naturalmente inquietos, pois com o aumento da população e da expansão dos centros urbanos, os locais que outrora eram calmos e sem qualquer interferência, podem deixar de o ser.
Por mais pequena que seja a interferência luminosa terrestre nos observatórios, é suficiente para que os telescópios deixem de poder detectar e observar as galáxias mais distantes e os objectos mais ténues. A única alternativa a esta situação seria a observação quase exclusiva a partir de telescópios em órbita, algo que parece financeiramente impossível de suportar, tendo em conta que até o Telescópio Espacial Hubble, telescópio histórico, ímpar e que já tanto contribuiu para o nosso conhecimento, esteve em risco de desativação por questões de orçamento !

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